
Como os LLMs calculam de verdade
O que o modelo faz e o que o modelo diz que faz são coisas diferentes.Interpretabilidade aplicada: os caminhos paralelos da aritmética, o planejamento antecipado, a racionalização depois do fato, as raízes concretas dos erros de conta e a síntese final do fluxograma completo.
Este é o módulo que responde à pergunta que originou o projeto. Os módulos anteriores explicam a arquitetura no papel; este mostra o que a pesquisa encontrou quando foi olhar dentro de um modelo em funcionamento, e onde a arquitetura no papel engana.
1. O que é interpretabilidade e por que ela é necessária
Conhecer a arquitetura de um Transformer não é o mesmo que saber o que um modelo treinado faz. A arquitetura define o formato do cálculo; o treino preenche bilhões de parâmetros com estratégias que ninguém projetou e que precisam ser descobertas depois, por investigação.
A analogia usada pela própria Anthropic é biológica: o modelo é cultivado, não construído, e estudar seus mecanismos internos se parece mais com microscopia do que com leitura de código-fonte. A linha de pesquisa que faz isso é a interpretabilidade, e ela desenvolveu ferramentas para rastrear quais circuitos internos se ativam durante uma resposta específica.
Para o seu objetivo como usuário avançado, esse é o material mais valioso que existe. Ele substitui suposições sobre o comportamento do modelo por evidência sobre o mecanismo.
2. Caminhos paralelos na aritmética
O caso mais didático documentado pela Anthropic é uma soma simples, 36 mais 59. Rastreando os circuitos internos, os pesquisadores encontraram não um algoritmo, mas dois caminhos rodando ao mesmo tempo.
Um caminho é aproximado: estima grosseiramente a magnitude do resultado, algo como perto de noventa e cinco. O outro é preciso e estreito: calcula com exatidão o último dígito da soma. Os dois se combinam no final para produzir a resposta correta.
Nada nessa estratégia se parece com o algoritmo escolar de somar coluna por coluna com transporte. O modelo inventou um método próprio, adequado à maquinaria de que dispõe, e ninguém o ensinou a fazer assim.
3. A racionalização depois do fato
O achado seguinte é o mais importante para quem usa modelos profissionalmente. Perguntado sobre como chegou ao resultado, o modelo descreve o algoritmo escolar, com unidades, dezenas e transporte. Ou seja, descreve um método que ele demonstravelmente não usou.
A explicação não é mentira no sentido intencional. O modelo aprendeu, dos textos humanos, como se explica uma soma, e essa explicação é o que ele produz quando o pedido é explicar. O circuito que calcula e o circuito que explica são diferentes.
A consequência prática é direta e vale para muito além de aritmética: a explicação que um modelo dá do próprio raciocínio é uma saída gerada como qualquer outra, não um registro de execução. Ela pode ser fiel, e frequentemente é útil, mas não é auditoria. Trate raciocínio verbalizado como evidência fraca sobre o processo interno, e verifique conclusões pelo resultado, não pela narrativa.
4. Planejamento antecipado e espaço conceitual compartilhado
Dois outros achados da mesma linha de pesquisa reorganizam a intuição comum. O primeiro: ao escrever versos com rima, o modelo ativa candidatos de palavra final antes de começar a linha, e depois constrói a frase para chegar até eles. Isso contraria a imagem do modelo como puro previsor míope de um token por vez; há planejamento em algum horizonte.
O segundo: os mesmos circuitos internos se ativam para um conceito independentemente do idioma em que a pergunta é feita. Há indício de um espaço conceitual compartilhado entre línguas, com a tradução para o idioma de saída acontecendo em uma etapa posterior. É por isso que conhecimento adquirido em um idioma transfere para outro.
Ambos os achados justificam a mesma postura: a previsão do próximo token é a interface de treino, não a descrição completa da computação interna.
5. Por que modelos erram contas, em quatro razões concretas
Primeira razão, a tokenização. Números são fatiados em pedaços arbitrários e o modelo nunca vê quantidade, vê símbolos. Já detalhado no M5, e é a raiz mais concreta.
Segunda razão, a ausência de laço. Uma passagem pelo modelo tem profundidade fixa, um número fixo de camadas. Algoritmos exatos com muitos passos, como multiplicação longa, exigiriam iteração que a arquitetura não oferece dentro de uma única passagem. É por isso que escrever o raciocínio passo a passo ajuda de verdade: o texto gerado vira a memória de trabalho externa que a arquitetura não tem.
Terceira razão, a natureza dos caminhos encontrados. Estratégias aproximadas funcionam bem na faixa de números que apareceu com frequência no treino e degradam fora dela. Números grandes ou incomuns caem justamente nessa borda.
Quarta razão, a amostragem. Mesmo com o cálculo interno correto, temperatura acima de zero pode sortear um token de dígito diferente. Para tarefas exatas, temperatura baixa é decisão técnica, não estilística.
Regra operacional que decorre disso: para aritmética que importa, peça o passo a passo, use temperatura baixa e prefira que o modelo chame uma ferramenta de cálculo em vez de calcular internamente.
6. Síntese: o fluxograma completo
A prova final do projeto é narrar este caminho sem consultar nada. Ele tem onze etapas, e você já viu cada uma delas.
O texto entra e é fatiado pelo tokenizador em índices inteiros. Cada índice busca uma linha na matriz de embeddings, produzindo um vetor de dimensão d. A codificação posicional é somada para que a ordem exista. O vetor entra no primeiro bloco, onde é normalizado e projetado em consulta, chave e valor por três matrizes aprendidas. As pontuações de atenção saem do produto escalar entre consultas e chaves, escaladas pela raiz de d k e mascaradas para o futuro. O softmax converte cada linha de pontuações em pesos que somam um, e esses pesos produzem uma média ponderada dos valores. O resultado é somado de volta à entrada pela conexão residual. O MLP processa cada posição isoladamente, expandindo, aplicando não linearidade e comprimindo, com nova conexão residual. Esse bloco se repete dezenas de vezes. Ao final, o estado da última posição é multiplicado pela matriz de saída, produzindo um logit por token do vocabulário. O softmax com temperatura transforma logits em probabilidades, top-k ou top-p corta a cauda, e um token é sorteado. O token é anexado à sequência e tudo recomeça.
Quando você conseguir dizer isso em voz alta, com suas palavras, sabendo o que cada operação faz e por quê, o Projeto Axioma cumpriu o que prometeu.
Exercícios
Tente responder antes de abrir.
1. Por que a explicação que um modelo dá do próprio cálculo não serve como auditoria?
2. Descreva os dois caminhos encontrados na soma 36 mais 59.
3. Por que escrever o raciocínio passo a passo melhora o desempenho em contas?
4. Qual a decisão técnica correta de temperatura para tarefas aritméticas, e por quê?
5. O que o achado sobre rimas sugere sobre a ideia de que o modelo só prevê o próximo token?
Trilhos do tutor
- Os dois caminhos internos da soma 36 mais 59 5 passos
- Racionalização: o que o modelo diz que fez 5 passos
- Planejamento, idiomas e as quatro raízes do erro de conta 6 passos
- As onze etapas do fluxograma completo, do texto ao token sorteado 7 passos
Dúvidas frequentes
Se eu já conheço a arquitetura do Transformer, para que serve a interpretabilidade?
Posso confiar na explicação passo a passo que o modelo dá do próprio raciocínio?
Quando o modelo explica errado como fez a conta, ele está mentindo?
Quais são os dois caminhos que a pesquisa encontrou na soma 36 mais 59?
Se o modelo só prevê o próximo token, como ele pode planejar alguma coisa?
Perguntar em português dá uma resposta pior do que perguntar em inglês?
Por que modelos tão capazes erram contas que uma calculadora de bolso acerta?
Por que pedir o passo a passo melhora tanto o resultado em contas?
Qual temperatura devo usar quando peço cálculo ao modelo?
Devo deixar o modelo calcular ou pedir que ele use uma ferramenta?
O que quer dizer que o modelo é cultivado e não construído?
Cadeia de pensamento serve como auditoria do que o modelo fez por dentro?
Quais são as onze etapas do fluxograma completo, na ordem?
Qual a diferença entre o softmax da atenção e o softmax do final?
O que é um circuito interno, nesse contexto de interpretabilidade?
Checkpoint
Oitenta por cento de acerto libera o módulo seguinte.
1. O que a interpretabilidade estuda e por que ela é necessária mesmo conhecendo a arquitetura?
2. Cite três razões concretas para erros aritméticos.
3. O que significa dizer que o modelo racionaliza?
4. O que o espaço conceitual compartilhado entre idiomas implica na prática?
5. Narre o fluxograma completo, do prompt ao token, sem consultar.
Bibliografia
Vídeos curados
Leitura obrigatória do módulo. É a fonte primária dos achados discutidos aqui.
A versão técnica completa, com os grafos de atribuição. Leia as seções que despertarem curiosidade, não o artigo inteiro.
Contexto sobre características internas e como elas são identificadas.